Eu tinha um colega quando era criança, no Anchieta, que era anão. Não era bem colega, era um cara de outra turma. Não tenho memória do nome dele. As pessoas o chamavam de "Anão". Claro que não pela frente. Não diria que ele era excluído por ser anão, não vou dizer que era popular também. Não acho que as pessoas chegavam ao ponto de ir até a cara dele e chamá-lo de anão ou algo assim. Mesmo para padrões de criança, e mesmo para os padrões de criança anchietana, isso era algo fora dos limites. Mas sim, informalmente ele era conhecido como "aquele anãozinho".
Teve um incidente com ele que eu me lembro até hoje. Apesar de eu não termos sido colegas de turma, fomos da mesma turma de inglês num determinado ano. A gente devia ter uns treze anos. Tinha um outro cara, um ou dois, que eram mais chegados dele, amigos mesmo, e que também estavam nessa turma de inglês. Como acontece entre amigos, de vez em quando começa uma discussão. O anão e um desses caras começaram a se provocar, um deles se ofendeu e a coisa ficou séria. Estávamos na sala de aula de inglês, todos os alunos, menos a professora, então havia uma plateia para assistir a um xingando o outro. E eles estavam nessa, "idiota", "retardado", pra coisa pior, e o amigo do anão me sai com essa: "tu tem uma cabeça maior que o sol".
"Tu tem uma cabeça maior que o sol".
É uma coisa meio lúdica, se você parar pra pensar. Como chamar um gordo de "baleia", essas provocações que a gente vê no gibi da Mônica. "Tu tem uma cabeça maior que o sol". É uma construção frasal que lembra aquela linguagem meio de nível B, pré-escola, como quando a gente diz, para representar uma coisa grande, que ela é "do tamanho do Mundo". Linguagem de criança.
Um outro cara até evidenciou isso, e ridicularizou esse amigo do anão (que no momento estava mais para inimigo), dizendo, como se fosse juiz da luta de desaforos, que isso nem era xingamento.
O rapaz só respondeu:
- Pra ele é.
E ficou encarando sério o anão, que estava de braços cruzados e cara fechada. E que não falou mais nada. "Cabeça maior que o sol" soou para todos como um xingamento infantil, mas foi o que desarmou o anão. Ele não falou mais nada mesmo. Ficou calado e os dois se olharam por um tempo, com raiva. A plateia foi pega de surpresa por esse anticlímax, a briga ganhando corpo, cada um sendo progressivamente mais agressivo, até que um deles saiu com uma tiradinha de censura livre e ganhou a batalha. O anão sentiu o golpe de verdade. "Cabeça maior que o Sol". O amigo estava certo, para ele foi um xingamento mesmo. Mas foi também uma violência. Porque, se para os outros parecia algo bobo, para o anão aquele insulto tocou numa parte sua que ele tinha vergonha. Para o anão, esse insulto falou de um problema que não tem solução, e que deve ter gerado tantas situações de choro ao longo da sua vida. Mas, quando aplicado a qualquer outra pessoa, é apenas uma frase ridícula.
Mas o mais triste não foi a derrota. Foi o silêncio. Não voltou a desafiar o colega, talvez porque estivesse a ponto de explodir de fúria, de explodir de tristeza ou com medo do amigo pegar mais pesado. De qualquer forma, apenas cruzou os braços e se calou. Foi submetido por essa violência que só ele viu.
Só reconhece a violência quem a sofreu. Todo mundo tem experiências ruins, mas se você fosse sincero comigo e me contasse as coisas que realmente lhe incomodam, ou vice-versa, a maioria me pareceria ou lhe pareceria piada. Ou risível. Ou, no mínimo, um exagero. Mas se essas coisas risíveis fossem colocadas em contexto, se fosse explicado o porquê da existência de cada fragilidade e de onde veio tal medo, aí dá para entender o que faz a cicatriz de cada pessoa arder. E todos nós temos cicatrizes.
Uma vez me convenceram de que as raças existiam. Me disseram: diga para um negro que é parado pela polícia por ser negro, que é provocado na rua por ser negro, que é vigiando por ser negro, que não foi contratado porque é negro, que é chamado de feio porque é negro, diga para ele que raça não existe. Diga para esse negro que todas as raças são iguais, e ele vai dizer, com todo o conhecimento inegável que a vivência lhe deu, que existem raças, sim. O mesmo vale para a violência, que existe onde quer que alguém diga que exista. Ela sabe que existe, porque ela sente na própria pele, e essa dor é um fato. Se você não sente, ao menos compreenda. Exercitar essa compreensão da dor alheia, sempre tão particular, é o que chamamos de empatia.